domingo, 27 de março de 2011

Ironman Brasil: Semana 12 - Ciclistas de Alma


Há muito tempo, quando ainda pegava onda, existiam os surfistas de campeonato e os "soul surfers". De um lado, surfistas competitivos, que mediam suas performances pelos litros de água jogados em cada manobra, pelo força de batidas, pelos "quase atropelamentos" de outros surfistas perdidos no meio da arrebentação. Do outro lado, seres tidos como mais evoluídos, em sintonia com o mar, que seguiam com harmonia a linha da onda, sem mudanças bruscas de direção. Nunca participei de nenhum campeonato, mas me agradava a ideia de ser "radical", mesmo que não o fosse.

E não é que essas ideias anacrônicas ainda existem. Necessidade besta das pessoas têm que querer desqualificar outras por algum comportamento peculiar. Necessidade besta de querer julgar o comportamento dos outros, tendo por base a própria experiência. Cada um na sua, pô!

Domingo passado participei de um desafio de ciclismo. Um AUDAX. É um tipo de evento não competitivo com origem na França, organizado por um grupo dissidente do Tour de France, que queria apenas curtir um passeio, tendo como único objetivo, completar grandes distâncias dentro de um determinado tempo limite.

Este evento que participei, era um Audax 300 (300km). Somente pessoas que já tinham completado algum evento prévio de 200 km (brevetados) podem participar. Não sou brevetado. Acontece que neste mesmo evento, havia um desafio de 150 km que encaixava direitinho na minha planilha de treino pro iron. Um treino de luxo.

Ok. Achei meio estranho o fato das orientações para a "prova" ter frases como: "é obrigatório parar nos postos de controle para carimbar o passaporte"(pô, vou quebrar meu treino pra carimbar um papelzinho?), "no km X do percurso, existe um posto onde se pode fazer uma boa refeição"(como assim ?????????).

Decididamente, eu sou um cara competitivo, o que não me torna menor ou maior que nenhum outro "atleta de alma" de nenhum esporte.



Fomos (eu, Marquinhos e Flávio) para Boituva. Trecho de uns 78 km pelo acostamento da rod. Castello Branco, sentido interior. Nós, com bikes espaciais. Eu com meia de compressão. Os outros cento e tantos ciclistas olhando meio incrédulos. Gente com todos os tipos de bike, com todos os tipos físicos. Meio estranho.



Largada dada. Com menos de 1 km, garrafinha de água do Marquinhos vai ao chão algumas vezes. Depois, com menos de 25 km rodados, dois pneus furados do Flávio, o campeão de pneus furados dos nossos treinos, disparado.



Mesmo sem nenhum caráter competitivo do evento (vai dizer isso pra um triatleta), éramos os últimos do pelotão.

E lá fomos nós. Velocidade de cruzeiro, vento de cauda. Pedal fácil. Fomos alcançando os grupos de ciclistas e deixando todos pra trás. Tivemos companhia de um grupo que se animou e ficou junto boa parte da primeira metade do evento, até serem despachados (com o Flávio junto) em uma longa subida (aêêêê Romeiros....).

No PC1, éramos motivos de observações maldosas dos "ciclistas de alma": "Olha os triatletas aí. Vão chorar com o vento na volta".

Vimos pouca gente saindo pro retorno, apesar de mais de 20 minutos perdidos com os percalços da primeira metade.

Realmente o vento da volta estava castigando, mas sem choradeira. Clip, posição aero e força. Fomos alcançando os ciclistas que estavam à nossa frente, inclusive um pelotão da cidade, todo organizadinho, com esquema de vácuo. Depois deste, mais ninguém à nossa frente.

Percorremos quase 157 km e chegamos à cidade em 3º e 4º, Marquinhos e eu, respectivamente. Bike no carro, tênis no pé...e pra espanto de quem estava lá e dos outros que iam chegando, saímos pra correr 6 km.

Foi um belo treino mesmo. Sinto que já garanti os 180 km de pedal do iron.

Esta semana de treino foi com volume pouco menor, mas com mais intensidade. 

A segunda começou mal, com água da piscina a 35ºC. Impossível nadar assim. Treino perdido.

Terça de TT com o Marquinho. O moleque me quebrou, mas no geral foi razoável. 30 km em 50'.

Quarta com natação (água normal novamente) e tiro de 6km de corrida. Terminei EXAUSTO com 25'. Esse lance de tempo é MUITO relativo. Pra alguns, esse tempo não é NADA demais. Pra outros é inatingível. Como disse no começo, cada um na sua! Pra mim foi FORTE e me deixou cansado pro treino na quinta. Cumpri tabela, mas não tive força pra ir pro Pilates.

Sexta com natação e só....mas com 20 tiros de 100m.

Sábado de cruzado em ritmo iron, devagar e sempre. Segundo o Marcos...a gente começa DEVAGAR e SEMPRE acelera...hahahahaha. Foi mesmo assim, mas sem quebradeira no final.

Domingo de longo de corrida, 26 km.

Estamos entrando no "point of no return". Aquele que a única coisa que resta pro piloto é levantar voo. Não dá mais tempo de parar o avião antes do fim da pista.

Treinamos juntos, em grupo, todos praticamente com a mesma planilha. Apesar disso, cada um tem que saber o seu potencial, suas limitações. Em geral, treinamentos de longa distância permite ao atleta se conhecer melhor. Quem tem juízo, ouve os sinais que o corpo SEMPRE dá.

Agora é a hora de se colocar metas de desempenho. Como vou fazer minha natação? Como vai ser meu ciclismo. Qual a velocidade média que vou buscar pra sair correndo bem? Qual meu pace de corrida?

Tudo isso é treinável. A prova é aplicação do treinamento.

Tá na hora de dar um reset no corpo e na mente. Botar na cabeça que o treino do meio iron é passado. Já estou com isso na cabeça para os treinos longos que virão, mas sempre lembrando o mestre Castilho: Sem respeito EXAGERADO. Bota a meta e vai atrás dela! Treinar com tempos próximos (de preferência pouco mais forte) do ritmo pretendido. Não adianta treinar os 180 km de bike em 8 horas se o pretendido são 6. O inverso também vale. De NADA adianta pedalar como um condenado nos treinos e não poder aplicar no dia...ou pior, não ter condições de correr uma maratona depois. 

O corpo não tem GPS, mas tem um relógio perfeito que sabe exatamente correlacionar tempo e intensidade da atividade física. Todas nossas reações metabólicas durante o exercício são baseadas nessa equação. Se fizermos o longão de bike ou corrida muito rápidos (muito abaixo do pretendido), como o corpo vai entender que ao passar aquele tempo que "ele estava acostumado" a treinar, ainda não é o fim do treino ou prova? 

Muito cuidado com a nossa "máquina" galera e boa reta final de treinos.

Abril vai ser PESADO.

Log da Semana:  300 km em cerca de 14 horas de treinos, mais 1 hora de Pilates e 1 hora de massagem.

Faltam 62 dias!



sábado, 19 de março de 2011

Ironman Brasil: Semana 11 - Encontro Marcado

Tudo começou como uma brincadeira no início do ano. Depois a brincadeira - inexplicavelmente - ficou meio tensa.

Criei no Facebook, um grupo fechado, para não incomodar quem não queria ouvir falar sobre treinos ou provas. É bem verdade que uma porcentagem muito grande de bloqueio de páginas de amigos (ou ex-amigos) se dá por postagens repetidas sobre os mesmos assuntos. Triatleta é craque em monoassunto.

Muita gente que entendeu o espírito da brincadeira ficou no grupo e aos poucos, mais e mais pessoas foram sendo agregadas. Hoje, essas pessoas, algumas que nem se conhecem pessoalmente, interagem, incentivam-se uns aos outros, compartilham vídeos sobre Ironman, falam sobre triathlon, sobre chocolates (kkkkk, pra você Julinha) sobre treinos, com bom humor e inteligência.

Algumas vezes, coloco sobre treinos e minha evolução na preparação para o Ironman também no mural principal (aberto) do FB porque existem pessoas que se interessam e torcem à distância, como a Ana Mesquita, minha "heroína de carne e osso", recordista latino americana da Travessia do Canal da Mancha, a Biba (mãe de um amigo dos tempos de escola), Osvaldinho, Filipe, Dora (amigos da antiga assessoria), antigos colegas de faculdade como a Juliana, Marino, a Renata, que me  mandaram mensagens dizendo que meus relatos os inspiraram de alguma forma, quer seja pra vencer a preguiça, quer seja como motivação pra ir à loja para comprar um tênis e voltar a correr, ou simplesmente porque torcem por mim.

Esta semana, o Marcos teve uma feliz ideia e resolveu compartilhar no nosso grupo fechado. Propôs uma reunião na arquibancada do Ironman Brasil, na linha de chegada, perto do final da prova, para comemorar com as pessoas que heroicamente conseguiram terminar (como espero que todos consigam) a prova antes do fim do tempo limite de 17 horas.

Em segundos, muitas mensagens foram pipocando. Estava marcado o nosso encontro. Encontro que rapidamente foi sendo reformulado. Por que não comemorar a chegada de cada um de nós? Comemorar a conquista de algo que buscamos com tanta dedicação.

Achei que isso seria o final perfeito pra 2 anos de tanta espera. Uma coisa que corrobora minha tese de o que torna as coisas especiais são as pessoas. Neste caso, o Marcos, Alcy, Marquinhos, Mari, Júlinha, Gra, André, Pedro, Rodrigo, Marcelo Dias, Flavinho, Sérginho, Ricardo Gaspar. Estes, os mais ativos. Macho Alfa (nome do grupo) é SEMPRE ativo.

Esse "compromisso" me fez lembrar um livro que eu li na escola, Encontro Marcado, do Fernando Sabino. Adorava quando os livros dele eram propostos. Esse em especial falava (pelo pouco que me lembro) de uma turma de amigos no final da escola. Acontecesse o que fosse, depois de alguns anos, naquele mesmo dia, eles se reencontrariam. O personagem principal, um alter-ego do autor, viveu a vida em função deste encontro. Depois de muitos contratempos, desilusões, perdas, dúvidas, ele chegou a conclusão que o encontro marcado não era com os amigos e sim com ele mesmo. Com o que ele deixou pra trás e com o que ele gostaria de continuar a ser.

O nosso encontro está marcado. Claro ele está aberto a todos que quiserem coroar a jornada até a linha de chegada e tornar o dia especial, com todos os amigos juntos, nem que seja para encontrarmos a essência de nós mesmos ou, quem sabe, já combinarmos o encontro do ano seguinte.

Log da Semana:  344 km em cerca de 17 horas de treinos, mais 2 horas de Pilates e 1 hora de massagem.

Faltam 70 dias!

PS: A semana teve treinos muito bons, como tiro de 3 km abaixo de 4'/km, desafio 150 km de pedal em Boituva (vai ser relatado ainda), mas vamos dar um respiro nos relatos dos treinos. Como disse, corpo e cabeça respondendo muito bem ao aumento do volume.



domingo, 13 de março de 2011

Ironman Brasil: Semana 10 - Outras Preocupações

A semana começou ainda em ritmo de carnaval. 

Trabalho na segunda, sem natação, mas com corrida no final de tarde. 

Terça de Romeiros com muita chuva e treino abortado antes da metade.

Quarta com tiros de 400m numa USP vazia. Quase me arrependi de não ter trocado pelos 80 km de pedal que faria no dia seguinte. O vento porém, me fez aceitar que não seria boa ideia. Apesar do fim de tarde bonito, o vento soprava forte. Dificultava até a corrida.

Na quinta, 80 km de pedal em pleno dia de semana. O que é pior, sozinho ao meio dia, com sol e ainda muito vento. Interminável.

Sexta foi off. A planilha dizia: natação...sei lá, uns 3 mil e 12 km de corrida. Na verdade acordei às 4 da manhã pra ingrata tarefa de levar a baixinha pro Santa Catarina. Adenoamigdalectomia. 

Sim, ainda tiram amígdalas em algumas situações e a dela era uma destas.

Cirurgia rápida, não tão limpa e com técnica não muito bonita, anestesia geral, com direito pequena complicação no final. Mas tudo bem. 

Recuperação pós anestésica complicada. Imagina uma criança de menos de 3 anos com sensações inexplicáveis, chorando, meio inconsciente. Nestas horas fico muito feliz por poder participar "do lado de dentro". Vejo a aflição de pais à porta do centro cirúrgico e fico feliz por poder estar ao lado dela, segurando a mão dela.

Posso dizer que ela tirou de letra e já está tirando vantagem da situação. Na hora de comer o que ela não quer, a garganta dói. Na hora do lendário sorvete pós amigdalectomia, a garganta está uma maravilha....e assim pro pão de queijo, etc, etc.

Por causa deste "evento", não fui ao que provavelmente foi o último final de semana em Romeiros. Preferi ficar por perto, caso a Vivi precisasse de mim. Resultado: 140 km dentro da USP debaixo de chuva, mas vou dizer....bem mais fáceis que os 80 km da quinta. Não tinha vento. A velocidade era constante. Decidi nem olhar a distância. Só olharia quando atingisse umas 4 horas de treino. Feito isso, meu treino estava quase no final. Mais poucos minutos, estaria acabado...ou melhor, não antes dos 6 km de corrida pós bike, novamente debaixo de chuva moderada. 

Domingo de corrida e a sensação de que agora os treinos pra maratona começaram. Foram 22 km como o mestre Cláudio ensina: progressivo, com início confortável,  grande parte do miolo do treino num ritmo controlado, mas mais forte que o ritmo alvo para a prova e final forte. Pace total muito bom, freqüência cardíaca baixa! Tô sentindo que tudo caminha melhor que o esperado! A experiência da maratona no ano passado foi excelente e discordo radicalmente de quem não vê necessidade de se correr uma maratona antes de encarar um ironman. Bagagem é tudo.

E pela semana atípica, post apático.

Log da Semana: 318 km em 15 horas, sem pilates, sem massagem.

Faltam 76 dias.

Boa semana de treino à todos.


domingo, 6 de março de 2011

Ironman Brasil: Semana 9 - Abandonado no Carnaval


Ao contrário de alguns que esta semana postaram com certa nostalgia no facebook, posts ou fotos lembrando antigos carnavais, não guardo recordações de infância de matinês ou qualquer outra festa.

Um dos poucos carnavais que me lembro, foi em casa, quando meu pai e meus irmãos vestiram-se de bebês e eu e minha mãe de egípcios, usando as fraldas de pano do Fernando, que na época era bem pequeno (dá pra imaginar a vida sem fraldas descartáveis?????). Sem bagunça, sem música, sem bexigas com água, serpentina ou confete. Vou pedir pro meu pai resgatar essas fotos e depois posto por aqui. São muito legais.

Carnaval pra mim, sempre foi no sítio que meu pai tinha em Ibiúna ou então, melhor ainda, na praia, acordando cedo pra pegar onda.

Nunca fui fã do carnaval. Não gosto de samba. Gosto menos ainda de desfiles de escola de samba, repetindo à exaustão uma letra, geralmente estapafúrdia e os comentaristas explicando as fantasias de forma mais estapafúrdia ainda. Depois do "advento" da aberração da axé music, tudo ficou pior......ecccccaaaa.

Bom, muitas coisas que fazemos também são consideradas esdrúxulas, como treinar todos os dias, competir num esporte que é a união de outros três, ficar o dia inteiro moendo o corpo e a mente em provas de resistência. Ok. Cada um na sua. Mas não consigo me imaginar num bloco em Salvador, com gente suada e fedida, numa concentração de gente por metro quadrado que faz parecer o metrô da linha vermelha (leste-oeste) em SP, uma maravilha.



O pior é que nem descansar eu posso. Feriados geralmente significam plantões, salvo raras ocasiões durante o ano.

Este ano, nem que não fosse trabalhar, por opção ficaria em SP....para treinar, enquanto esposa e filha viajam para o interior. Isso é WIT....

Fiquei. Não me arrependo.

100% da planilha feita, independente da chuva que não dá trégua. Sim, corri na quarta debaixo de água e frio e botei a bike na chuva na quinta feira. Sexta fiz meu treino longo de corrida, além de nadar. A cereja do bolo da semana porém foi hoje, domingo. Não pude treinar no sábado por conta do trabalho. Transferi o longo de bike pra hoje. 130 m de bike + 6 km de corrida pós bike moderado.

Acompanhado de dois amigos, fui pra ciclovia. 



Queria fazer os 130 km dentro dela, independente da distância entre a minha casa e a sua entrada,  na estação Vila Olímpia de trem da CPTM. Pra quem não é de São Paulo, a ciclovia da marginal Pinheiros tem 14 km de extensão (em expansão) e tem o trajeto que beira o Rio Pinheiros e a linha de trem metropolitano. É bem plana, segura e uma ótima alternativa aos locais habituais de treino.

Hoje rolou muito vento, um pouco de frio e uma capivara. 


É impressionante a resistência da vida. Como pode algo sobreviver num lugar como esse? Acho que nem se pode chamar o que corre (ou fica estacionado como um lago morto) dentro dele de água, mas elas estão lá, bebendo, tomando banho, comendo. E pelo TANTO de cocô espalhado pela pista da ciclovia, elas estão comendo bem!!!! Ou pelo menos MUITO.

Foi muito bom. Mantive a média que pretendo fazer o iron. Não foi fácil e foi muito desgastante, mas nada é tão rígido que não possa ser mudado. Se perceber que não vai dar, mudo a estratégia. No total foram 155 km. Cheguei em casa, botei tênis e fui correr. 6 km pra 28'30". Paguei o preço, de novo. Quebrado, sem a vitamina da ironwife. Sem almoço pronto. Sem a ordem de ir dormir pra descansar. Fiz tudo sozinho....mas não é por isso que estou sentindo falta dela.

Estamos entrando na útima semana da primeira metade de treinos pro iron. O negócio tá tomando forma.


Log da Semana:  317,7 km em cerca de 15 horas de treinos, mais 2 horas de Pilates e 1 hora de massagem.

Faltam 83 dias!

sábado, 26 de fevereiro de 2011

Ironman Brasil: Semana 8 - Ironwife



Vou tomar por empréstimo um sensacional texto escrito pela Fernanda Damy Haybittle, esposa do Roger Haybittle, que treina na BK, aqui em Sampa. O cara é ironman já com certa experiência (7 irons nas costas) e ela por tabela, ironwife experiente, o que faz com que ela veja as coisas de uma forma bem interessante. Vou transcrever (sem as fotos que acompanham o texto, em respeito à privacidade deles), mas o original está no blog dela, que fala de muitas coisas e merece ser lido.

Aí vai. Divirtam-se:




Meu marido é um Ironman. Isso para muita gente pode não significar absolutamente nada – afinal, o triathlon não é um esporte super divulgado no país do futebol, e nem sua prova mais importante disputada por aqui, o Ironman Brasil, é transmitido ao vivo nem tem cobertura on line, a não ser da própria organização.
Já para quem circula no mundo esportivo, isso é muita coisa. Os Ironmans têm mesmo aura de super-heróis, de imbatíveis, indestrutíveis… O Ironman é a Gisele Bündchen das modelos, a Fernanda Montenegro das atrizes, o Maradona dos Argentinos. Mas, dentro de casa, a coisa é bem menos glamorosa do que parece, mas nem por isso deixa de ter sua graça.
Eu não me apaixonei por um triatleta – na época, ele gostava de esportes, mas praticava vários e o triathlon era só mais um deles. Futebol, tênis, corridas de rua e motociclismo estavam entre os demais. Eu acho que isso nunca aconteceria (me apaixonar por um triatleta), já que vejo o esporte de maneira diferente: para mim, é só mais um meio de manter a forma e a saúde, assim como fazer uma dieta balanceada ou beber muita água. Mas ele não é assim, é um sujeito superlativo: enorme de alto, voz de trovão, apetite de guerrilheiro das Farc e uma disposição que, se ele fosse da balada, eu teria certeza de que ele andava tomando êxtase.
A coisa começou a ganhar corpo quando ele teve uma hérnia de disco e ficou meses sem praticar nenhum esporte, e logo depois precisou ser submetido a uma cirurgia que não poderia ter dado mais certo. Nesta época, começou a treinar muito mas isso em nada me afetava – até eu engravidar. Sim, ficou contente, mas logo fez as contas: o moleque iria nascer bem no final de maio, época do Iron de Floripa!!! O primeiro Iron a gente nunca esquece. Nem o atleta, nem a esposa. Fiquei tão brava com essa preocupação que nunca deixei o miserável me acompanhar a nenhuma consulta médica, e nem dava boletins do crescimento do bebê nem das previsões quanto à data do nascimento. SÓ DE RAIVA. Eis que a data foi se aproximando e eu com aquela barriga minúscula e muda quanto à data. Quando faltavam 15 dias pro Iron, tive uma consulta com o obstetra e ele fez questão de ir. Tonta, achei que ele estava querendo saber se estava tudo certo com o bebê, mas o papo foi assim: “Dr., eu tenho duas viagens neste mês e só estarei aqui entre os dias 18 e 23 de maio. Faz esse menino nascer nesse período pelamordedeus!!”. Ele deve ter feito uma mandinga tão brava que eu tive um problema na placenta e Tom nasceu no dia 20/05/2002. Dia 23, eu ainda na maternidade (fiquei até dia 25), ele mandou entregar uns chocolates pra mim e se mandou pra Floripa. Depois tem gente que estranha que só tivemos um filho.
Daí em diante, vi que estava numa guerra em que não escolhi entrar, mas já entrei derrotada. Assim como todos os fanáticos, ele pôs na cabeça que não poderia mais passar nenhum ano sequer sem fazer a tal prova, e a minha vida familiar passou a se dividir entre os “treinos antes da prova/ as provas-treino/ a prova/ a gripe após a prova/ e o recomeço dos treinos pra prova do próximo ano”. Todos os dias, ele acorda no meio da madrugada para pedalar. Depois, musculação. À noite, natação e corrida. Graças a Deus que nesse meio tempo ele trabalha – falida eu não agüentaria nem um mês disso. Mas temo muito pela nossa saúde financeira, já que anualmente cifras impublicáveis são gastas com inscrições, passagens, hospedagens, treinos e elas – as bikes. Uma vez perguntei por curiosidade quando custava cada bike, e ele foi taxativo: “Melhor você nem saber, Broto”.
Eu sou o Broto. Sou mundialmente conhecida como tal, já que para todo e qualquer problema que aconteça comigo, em nossa casa ou no planeta, a resposta é sempre a mesma: “Tranqüilo, Broto”. Até nossos amigos, todos atletas, tri ou não, me chamam de Broto. Estes mesmos amigos, a quem antes de conhecer eu chamava carinhosamente de “Turma da Granola”, adoram ouvir a infinidade de histórias absurdas que eu vivi por conta da mania dele de treinos.
Tirando o clássico de me deixar na maternidade, ele ao longo dos anos foi aprimorandosua técnica de me enrolar, mas como uma piada de mau-gosto (pra ele) do destino, eu sempre acabava descobrindo suas falcatruas. O seminário de trabalho em Mônaco era, na verdade, a Maratona de Berlim. No dia do aniversário de quatro anos do nosso filho, a quem ele realmente ama muito mas tem um jeito estranhíssimo de demonstrar, lá foi ele fazer uma prova nem sei de quê em Ilha Bela. Chegou atrasado, achando que estava abafando: “Mas a festa é só amanhã, pra quê o stress??” Posto aqui uma foto do garoto no almoço deste dia, bravo pela ausência do pai, onde estavam todos os seus irmãos (meus enteados), meus pais e eu, sozinha, pra variar.


Depois das notícias de que muitos atletas estavam sendo atropelados ao treinar na estrada, comecei pedindo pra ele não ir. Nada. Depois tentei proibir. A-hã. Como sou muito insistente e não pretendo ficar viúva tão logo, perturbei tanto que ele prometeu não ir mais. Certamente, só para que eu parasse de falar nesse assunto. Um belo dia, após o tradicional pedal de domingo, ele me aparece aqui com nosso amigo Amauri, cujo apelido era Aranha Negra (por correr muito bem) mas logo evoluiu para “Minha Nêga”. Amauri, cuja tez faz jus ao apelido, estava branco de pó e não resisti: “Amauri, o que aconteceu que você está branco assim, todo sujo?”. Ele, inocentemente, respondeu: “É o pó da estrada!”. Neste momento, Roger fica sem cor e Amauri começa de fato a ficar branco – pois na hora percebeu que havia entregado mais uma do amigo. Depois desse dia, passei a conferir pessoalmente os locais de treino, mas confesso que hoje desencanei: não tenho filho de 48 anos. Quanto ao delator, tudo certo: amigo da família até hoje.
Em 2007, fomos acompanhá-lo numa viagem profissional à Europa, e depois seguiríamos para Clearwater, onde ele faria o mundial do 70.3 (tipo um meio-Iron) e encontraríamos alguns amigos. A prova foi super bacana, até comecei a correr sério depois disso, mas a viagem foi um inferno. Várias vezes ele tentou burlar a segurança dos aeroportos pelos quais passamos para ter certeza de que ele e sua BMC (tipo a Hermés das bikes) estariam no mesmo vôo. Eu, graças a Deus, falo inglês fluentemente, senão estaria detida em Amsterdam até hoje, pois tive que ver tudo sozinha: passagens, check-in, carrinhos com malas e as malditas rodas. Ele só carregava a bike, e gritava “Agiliza, Broto!!”. Meu filho na época tinha só cinco anos, mas hoje empurra um carrinho cheio de malas muito bem. A necessidade faz o homem. Na volta, fui obrigada a dar duas garrafadas de água nele, pois sua empolgação a conversar com uma atleta profissional passou dos limites. E olha que meus limites são amplos. Ainda bem que estávamos de executiva: esse tipo de coisa na econômica é barraco, na business, é excentricidade.

Em 2008, fui pela primeira (e última) vez ao Iron. Estava toda a sua família toda, e foi importante para meu filho cruzar a linha de chegada com ele. Depois disso, não mais – a tensão gerada pela antecipação da prova, os parafusos que podem arrebentar, a organização das coisas é muito complexa e não é justo ele ter ao seu lado alguém que realmente não vê sentido naquilo tudo. Entendo algumas vezes – a obsessão me incomoda, seja com o que for: compras, comida, religião etc. Além disso, ele e meu filho são muito companheiros, e uma criança não entende como o pai pode ficar tão alterado com coisas tão simples, como uma garrafinha que não fecha direito, ou a roupa de borracha que está com o zíper estourado. Então, é melhor para todos que este seja um momento só seu. Ao final de todos os Irons, ele me liga para dizer que está vivo, que me ama e que nunca mais vai participar da prova. Depois do 7º. Iron consecutivo, pedi que ele parasse com isso: nós dois sabemos que ele vai fazer a prova todos os anos, independentemente de quem ele ame e do quão sacrificante seja. Tem mentira que não vale nem a pena ser contada. Hoje, ostento orgulhosamente o título de Ironwife, honraria que ganhei mais por tempo de serviço do que por mérito mesmo. Tem até adesivo no meu carro – passo pelos treinos e não preciso nem cumprimentar um a um. Todo mundo sabe que sou eu.
No ano passado, após anos vivendo juntos, ele resolveu casar. Foi uma festa linda na Daslu, união celebrada por dois de nossos melhores amigos – Minha Nêga e Mariana, minha irmã: noivo ateu, noiva espírita, não cabia padre então fizemos algo bem melhor. Todos os nossos amigos atletas estavam lá, a lembrancinha da festa foi um Gatorade e lá, bem em cima do bolo, estava ela para me lembrar de sua importância: a bike. Nós dois e a bike. O DJ estreladíssimo fervendo a pista de dança e nos telões passava o quê? VÍDEO DO IRON. Final de prova, o povo se arrastando, gente saindo de UTI… Bem adequado. Quase desisti, mas pensei no meu pai: seria muito desgosto aos 73 anos e saindo de um câncer. Casei – com ele e a bike.
Falando em coisas que podem dar errado, no final de 2010 ele teve a brilhante idéia de fazer um Iron e um 70.3 em apenas uma semana. Como seu pai morreu cedíssimo de infarto fulminante, exigi exames completíssimos para poder liberar o passaporte. Afinal, sou eu que tenho a chave dessa milagrosa gavetinha. Sem opção, ele foi e o pior aconteceu: ele tem um coração de ouro e pode fazer quantos Irons quiser. Por um lado, achei ótimo, pois meu pior pesadelo se foi – ele ter um treco numa prova. Por outro, sei que agora ele não vai parar nunca mais, até morrer de outra coisa.
Fomos nós três para Miami onde ele começaria essa insanidade pelo 70.3. O tempo estava ótimo e ele tentou ao máximo não surtar. Fomos assistir a prova e foi bem bacana, pois o lugar era lindo e o tempo ajudou. Por conta da babaquice da organização, nosso filho não pôde cruzar a linha de chegada com ele, o que deixou o moleque bastante irritado. Mas tudo bem; alguns dias depois era hora de ele ir para Panama City e nós, pro Brasil. Quando ele chegou em Panama City, começou seu calvário: a entrega dos kits já havia sido encerrada, os parafusos da bike quebraram, não sei mais o quê pifou e ele teve que ir ao jantar de massas procurar alguém da organização para conseguir kit e parafuso, ou mecânico, ou talvez um pai de santo. Isso, para um Ironman, é como o diagnóstico de uma doença terminal, ou um tsunami que deixou a família viva mas arrastou as bikes pro mar sem fim. Ao mesmo tempo, enquanto eu estava em Miami com meu filho, nosso vôo foi cancelado, nos avisaram horas após o check-in feito e teríamos que ir pra um hotel sabe-se lá de qual categoria. Quando liguei para falar isso, esperando algum tipo de orientação, a resposta não poderia ter sido outra: “Se vira, Broto. Você fala inglês e tem cartão de crédito. Agora tenho que achar o cara no jantar de massas. Tá f., tá f.!!” Jurei nunca mais ir assistir a prova nenhuma, a não ser que seja em Roma, por que aí eu já fico por lá mesmo.


O dia a dia também pode ficar pouco confortável: fui expulsa do meu próprio closet e tive que mandar fazer um closet novo, só para as roupas de treino dele. Hoje de manhã contei por alto: só de camisas para bike, são mais de 40. Uma dúzia de gavetas com sungas, bermudas de bike e corrida, 20 pares de tênis e infinitas prateleiras de camisetas de prova. Na despensa da casa há o Cantinho do Dopping, batizado por mim, com toda sorte de suplementos receitados pelo famoso Tubarão. Ainda acerto minhas contas com este senhor. Só podemos sair no meu carro, sempre limpo e organizado, pois eu e meu filho não cabemos no carro dele, que é uma Pajero Full. Já pedi ao nosso encanador para colocar uma pia dentro do carro, assim ele pode morar direto lá, nem precisa entrar em casa. A placa desse mesmo carro é seu melhor tempo de Iron, que por sinal ele fez com o dedo do pé quebrado, porque Iron que é Iron aguenta a dor.


Hoje estamos indo pra Santos – amanhã tem prova. Ele acha fantástico pois minha mãe mora na frente da largada, então temos hospedagem, alimentação e babá de graça. Quando meu filho era pequeno, assistíamos a corrida. Hoje, como o pai dele só faz isso, ele prefere ficar com os avós. Quem disse que sabedoria só vem com a idade? Às vezes dou uma incerta nas provas pois a mulherada pira com triatleta. Mas é raro – nem sempre tenho garrafas plásticas à mão para atirar nas lambisgóias, ou nele.
Este post é dedicado à mim mesma, e aos meninos que tanto convivem conosco e me pediram um depoimento do que é ser mulher de Iron. Mas meus amores, acho que vocês podem parar de procurar: outra como eu e com a minha paciência não deve ter.



Divertido né?

Quantas esposas, namoradas, mães ou todos os equivalentes masculinos, já não passaram por alguma situação parecida?

Quem mandou esse texto para a minha ironwife foi a minha cunhada maratonista. Ela se reconheceu em algumas passagens. Achei um pouquinho exagerado, mas não poderia deixar de ser diferente....eu estou do "lado triatleta" da história.

Mandei a seguinte resposta pra Vivi e pra minha cunhada:

Quanto exagero!

Sim, o Ironman é a Fernanda Montenegro do triathlon.

Sim, é bem menos glamouroso do que parece: temos que aprender a fazer xixi dentro da roupa de borracha e achar o "quentinho" bom. Temos que aprender a fazer xixi pedalando. A gente chega em casa sujo e fedido, muito fedido. A enorme sobrecarga de carboidratos e proteinas faz dos triatletas os seres mais perigosos do mundo para o aquecimento global. Não existe nada mais feio do que o pé de um triatleta. Dói pra subir escada, mas dói MUITO mais pra descer. Raramente você tem vontade de ir pra cama depois das 10 da noite. Acordar enquanto todo mundo dorme é coisa comum. De fim de semana é pior porque tem muita gente ainda voltando (bêbado) pra casa....poderia aqui ficar falando indefinidamente. Se tem "mulher" que "paga pau" pra triatleta, o que é uma mentira deste post (não tem ninguém vendo provas de triathlon, a não ser a própria família dos triatletas), realmente elas não entendem nada de triathlon e nem de triatletas.

Sim, a bike para o triatleta tem uma importância que é melhor nem perguntar...hahahah

Sim, é a coisa mais difícil do mundo organizar o tempo pra TENTAR não deixar de fazer nada: trabalhar, treinar, ser pai, ser marido.

Não. Nunca deixaria minha mulher na maternidade, recém puerpera. Mas planejamos a próxima gestação em função do ironman.

Sim, os gastos são impublicáveis e inevitáveis.

Sim, existe a "mentirinha caridosa", aquela sem intenção de prejudicar ninguém, quando se trata da próxima prova, ou quando dizemos que NUNCA mais faremos tal prova ou tal treino.

Sim, o cantinho do doping existe: um BALDE enorme de carbo/whey, caixas de suplementos e comidinhas de prova, gatorade. A cada dia que passa tá aumentando. Nada ilícito.

Sim, cruzar a linha de chegada com as pessoas que você ama e que fizeram parte de tudo isso é a coisa que mais importa no fim do dia ou no fim da prova pra um triatleta.

Sim, tudo isso é só por realização pessoal, sem nenhum outro propósito. Não é só para manter a forma ou saúde. É amor por este esporte, pelo triathlon, que é sim apaixonante pra quem faz. Não existe triatleta pela metade. Ou se é, ou não!

Sim, damos MUITO valor às nossas ironwives, mesmo que tenhamos um jeito meio torto de mostrar isso (ficando mais fora de casa do que dentro). Embora também a minha ironwife não soubesse quando casou comigo (eu já era triatleta, mas com pouca atividade), ela entendeu - ou aceitou, por falta de opção - meu romance com a bike. Dá dá toda a retaguarda, todo o suporte e toda a tranquilidade que eu preciso pra continuar nessa louca viagem. Sem ironwives, ou irongirfriends ou o que quer que seja, não existe o ironman.

Sim, o primeiro Iron é inesquecível e tô fazendo de tudo pra que seja inesquecível pra todo mundo que for me ver.

Paciência, faltam pouco mais de 90 dias (quando mandei o email).


Se o texto da Fernanda foi uma auto-homenagem, o meu é em homenagem à todos os ironpartners, tão importantes nessa loucura toda.



Pra não alongar o que já está muito longo, um pouquinho da semana de treinos: Natação prejudicada pela perda dos óculos. Bike com 120 km (em duas sessões de 60 km na 3ª e na 5ª) na bolinha, na verdade uma praça com cerca de 500 dentro da USP, com asfalto liso, sem muito desnível. Bom pra manter média. Longão com 120 km em Romeiros com o Pedro e Marcos.....caraca, doeu pacas!!! Corrida com sessão de tiro de 2 km na quarta, sofrido, mas bem feito, pequenos volumes pós bike pra relembrar a "MARAVILHOSA" sensação de correr ao descer depois de pedalar. Como adiantei o blog esta semana, ainda falta o longo de 18 km no domingo cedo. Semana de muito cansaço, potencializado por muito stress no trabalho.

Março promete.

Log da Semana:  270,6 km em cerca de 13 horas de treinos, mais 2 horas de Pilates e 1 hora de massagem.

Faltam 91 dias!